Ficou claro que o interesse não era amigável. Seus olhos exprimiam a vontade de tomar conta daquela terra fértil e de bom cuidado. A população se via repleta de dúvidas e receosa sobre o que aconteceria. O político simpático e super sociável foi adentrando a estrada em cima de sua charrete bege e bem pintada, rodeado de seus capangas e poderes materiais. Sua roupa brilhava perto dos macacões dos habitantes, mas mesmo assim as pessoas não baixaram a cabeça para ele. Na mão, ele carregava uma maleta preta de couro verdadeiro. Ninguém sabia o que ali dentro existia, mas todos imaginavam papéis e mais papéis que pudessem arruinar com suas vidas.
O político tinha um bigode muito bem aparado – provável que ele tivesse pagado alguém para fazer algo assim, não era capaz de gastar seu tempo com besteiras que pudessem ser pagas. Ele andava como se fosse um rei entre os bobos da corte e já tinha um sorriso no canto da boca, como se aquilo que tivesse em mente fosse se concretizar. Foram horas assim, todos aguardando pelo o que fosse ser decidido e querendo saber o que ele queria ali afinal. Era quase uma tortura, todos estavam atentos ao que pudesse acontecer. As mulheres agarradas aos seus filhos precaviam-se do pior. Os homens seguravam a faca atrás, nas costas, escondida. Nunca se sabe o que um senhor tão rico de bens materiais pode querer fazer.
Depois de visitar toda a aldeia, conhecer seus afazeres e conversar com os chefes de cada setor, ele rondou alguns animais e resolveu, então, falar o que talvez muitos aguardaram:
- Quer dizer então que vocês todos não precisam dos meus poderes para sobreviver?
Ninguém respondeu. Se alguém dissesse sim ele podia se revoltar. Se alguém dissesse não ele poderia querer aproveitar a situação e pegar tudo o que desse pra ele. Criar os piores males ali dentro. Mas e se alguém dissesse que sim e ele ficasse feliz? Ou se alguém dissesse não e ele virasse as costas nem aí para eles? Exatamente por causa dessas dúvidas que ninguém respondeu. Mas ele continuou mesmo assim:
- Vocês devem estar assustados comigo aqui, mas vocês têm razão. – Os olhos dos moradores ficaram arregalados. Ninguém sabia de fato o que aquilo queria dizer. Ele continuou: - Eu tenho muito dinheiro. As pessoas fazem questão em me dar dinheiro, sabem como é... Fama, poder. Mas enfim, não quero me prolongar muito tempo aqui. Vamos ao que interessa.
Todos se sentiram aliviados e tensos ao mesmo tempo. Depois de mais uns dois minutos em silêncio ele encheu o pulmão de ar como se fosse dialogar cerca de vinte minutos sem respirar novamente e começou:
- Semana passada, um colega meu disponibilizou muito dinheiro pra mim. Um dinheiro que eu não sei da onde vem. Só sei que é muito. Eu sei que vocês não têm nenhum líder para representá-los fora daqui, então eu gostaria de oferecer esse dinheiro em troca e poder fazer isto.
Todos ficaram perplexos. Ninguém nunca tinha sido tão generoso e preocupado. Percebia-se que não havia interesse no seu olhar. Ele não estava preocupado com o dinheiro. Pegou, se agachou como se fosse reverenciar todos os moradores. Eles já tinham um sorriso de orelha a orelha no rosto. Pensavam o quanto poderiam melhorar a aldeia com aquele dinheiro e continuar a rotina calma. Ele pegou, levantou uma das calças que tapava o sapato marrom e tirou um bolo de dinheiro. Ninguém entendia porque ele guardava ali se tinha uma maleta. Depois, tirou o cinto, levantou a camisa, puxou a cueca de marca caríssima e tirou mais um bolo. Foram pulos de felicidade de ambos os lados. A aldeia permaneceu inquieta durante muito tempo festeando. Os tempos brilharam mais do que se imaginava. Novas moradias, rotina mais organizada do que nunca e um futuro tranqüilo para várias gerações. Deve ter sido um tempo muito difícil para eles, sem carteiras para guardar nem os próprios bens. Ainda bem que hoje existe, senão...
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